Fachada do Palácio da Liberdade em Belo Horizonte (MG)
Autoria: Míriam Célia Silva
Inaugurado em 1898, o Palácio da Liberdade integrou o plano urbanístico da Praça da Liberdade, elaborado pelo arquiteto pernambucano José de Magalhães. A execução do projeto de composição arquitetônica contou inicialmente com o empreiteiro Antônio Teixeira Rodrigues, o Conde de Santa Marinha. Desde sua fachada, o Palácio da Liberdade expressa os princípios republicanos e positivistas que nortearam a concepção de Belo Horizonte como a nova capital de Minas Gerais.
Revestida em pedra de tonalidade cinza-clara, a fachada foi executada por meio da cantaria, técnica construtiva baseada no corte e no assentamento de blocos de pedra cuidadosamente trabalhados. Sua superfície apresenta relevo formado por linhas horizontais paralelas que percorrem as paredes, criando pequenas faixas regulares e conferindo textura ao conjunto composto por cinco partes interligadas.
A superfície do edifício tem relevo formado pelas linhas horizontais paralelas que percorrem as paredes, criando pequenas faixas regulares e conferindo textura ao conjunto composto por cinco partes interligadas. O corpo central da construção se projeta ligeiramente para a frente em relação ao restante da fachada. Nas laterais do corpo central há duas alas menores e recuadas
As duas são semelhantes e possuem uma janela no térreo e outra no andar superior. Nas duas extremidades estão os torreões, estruturas que lembram torres. Eles possuem formato arredondado e são cobertos por cúpulas ornamentadas. A disposição simétrica desses elementos pode ser associada ao princípio de ordem, valorizado pelo regime republicano e pelo pensamento positivista.
No ponto mais elevado e central da fachada encontra-se o busto de Marianne, símbolo da Liberdade e da República. Voltada para a frente, a figura apresenta cabelos ondulados e é adornada por uma coroa de louros da qual irradiam elementos pontiagudos semelhantes a raios de luz. A essa representação associam-se os ideais de racionalismo e de Estado laico que orientaram o projeto simbólico da nova capital.
Referências:
Foto: Jomar Bragança
Fachada Palácio da Liberdade. Foto: Acervo Palácio da Liberdade
MESA DO SALÃO DE BANQUETE. Foto: Acervo Palácio da Liberdade
Autoria: Pedro Piuco
A mesa do Salão do Banquete do Palácio da Liberdade se destaca, antes de tudo, por sua dimensão alongada e pela imponência do conjunto que forma com o espaço. Trata-se de uma peça de grandes proporções, em madeira escura e acabamento polido, cuja superfície refletiva reforça a sensação de solenidade e cuidado formal. Disposta no eixo central do salão, ela organiza o ambiente e orienta o olhar do visitante, estabelecendo uma clara hierarquia espacial. Ao seu redor, as cadeiras estofadas em vermelho intensificam o caráter cerimonial, remetendo tanto à ideia de poder quanto à tradição diplomática e política associada ao próprio Palácio da Liberdade.
Essa configuração não é apenas funcional, mas também simbólica. A mesa, pela sua extensão, sugere a capacidade de reunir diferentes autoridades e convidados, funcionando como espaço de negociação, celebração e tomada de decisões. Nesse sentido, ela materializa o papel do Palácio como sede do governo mineiro no início da República, período em que Minas Gerais ocupava posição central na política nacional. A própria disposição linear e contínua da mesa, pode ser interpretada como uma expressão de unidade e centralização do poder, valores importantes no contexto republicano.
Além disso, a mesa dialoga diretamente com os elementos decorativos do salão (espelhos, colunas ornamentadas, pinturas parietais e lustres) compondo um ambiente que combina suntuosidade e representação institucional. O brilho da madeira, refletindo a luz do grande lustre central, contribui para criar uma atmosfera de prestígio, adequada a recepções oficiais e eventos de alta relevância política. Assim, o mobiliário não pode ser compreendido de forma isolada, mas como parte de um conjunto cenográfico pensado para afirmar a autoridade do Estado e a sofisticação de sua sede administrativa.
Do ponto de vista educativo, essa mesa apresenta grande potencial para mediações. Ela permite discutir temas como a cultura política da Primeira República, os rituais de poder e sociabilidade das elites governantes, e o próprio uso do espaço palaciano como lugar de representação institucional.
A mediação do mobiliário também possibilita estabelecer conexões com experiências cotidianas nos visitantes, uma vez que a mesa é também um espaço tradicional de encontro, convivência e compartilhamento nas residências. A partir dessa aproximação, podem surgir reflexões sobre as diferentes formas de sociabilidade construídas em torno desse mobiliário, seja em ambientes familiares, seja em contextos oficiais e cerimoniais. Dessa forma, o objeto deixa de ser apenas um elemento decorativo e passa a atuar como documento histórico, capaz de conectar vivências pessoais e processos históricos.
MESA DO SALÃO DE BANQUETE. Foto: Acervo Palácio da Liberdade
MESA DO SALÃO DE BANQUETE. Foto: Acervo Palácio da Liberdade
CADEIRA DO CINEMA. Foto: Acervo Palácio da Liberdade
Autoria: Laura Silva
Construído nos anos 1940, durante o governo de Benedito Valadares, o cinema – ou sala de projeção – ressalta o caráter multiuso do Palácio. O espaço se destaca em meio a formalidade de uma sede governamental e o aconchego de uma casa. Nele, são encontrados projetores originais da década de 50, adquiridos por Juscelino Kubitschek, um piano (possivelmente utilizado como trilha sonora dos filmes, na época, mudos) e 25 cadeiras tradicionais. A mobília é composta majoritariamente por madeira e prioriza um estilo modernista, com estofado e encosto alto – suportando toda a extensão das costas, o que causa sensação de conforto, tendo em vista a duração das projeções. Esses fatores demonstram uma preocupação com a estética, mas também com a comodidade daqueles que frequentavam o local.
Na cor bege, algumas cadeiras acompanham cinzeiros embutidos na parte traseira. Essa característica específica auxilia na elucidação de alguns hábitos da época. Nas décadas de 40 e 50, o costume de fumar era sinônimo de elegância, o que mostra a atividade enquanto uma prática comum e amplamente aceita, inclusive em espaços fechados, como o cinema. As propagandas em torno do incentivo ao tabagismo faziam parte do contexto do período, em razão do baixo custo da produção dos cigarros e a necessidade de escoamento dessas remessas. Portanto, os cinzeiros localizados nas cadeiras demonstram a inserção dos móveis em seu próprio tempo.
Os fatores listados demonstram como os objetos possuem características não apenas estéticas e técnicas, mas também históricas. Segundo o ex-secretário da Cultura, Angelo Oswaldo, as cadeiras são, portanto, ornamentos históricos que se adaptam a diversas funções. Elas são, portanto, arte e ofício – um convite a se assentar, dialogar ou assistir a um filme – e oferecem, além disso, a oportunidade de rememorar histórias, épocas e contextos.
CADEIRA DO CINEMA. Foto: Acervo Palácio da Liberdade
ORQUIDÁRIO. Foto: Laura Luz
Autoria: Gabriel Barreto
O colecionamento de orquídeas data da época dos gabinetes de curiosidades, coleções privadas comuns na Europa durante os séculos XVI e XVII que, a partir de objetos naturais (naturalia) e humanos (artificialia), serviam como formas de organizar o mundo. Desses gabinetes, focados na organização lógica do universo observável, as orquídeas começam nos séculos XVII e XVIII a ser alvos de um interesse científico e também ornamental; essa nova postura sobre tais plantas inaugura, em diversos países europeus duas coisas: uma tendência chamada orquidofilia (orchid fever, em inglês) e, em decorrência dela, um grande interesse comercial sobre essas flores a partir do século XIX (Silva, 2013).
No Brasil, país com diversas espécies nativas de orquídeas, ocorreram diversas expedições científicas europeias, algumas em parceria com cientistas brasileiros para catalogar a flora brasileira e, entre os estudos, alguns visavam especificamente as orquídeas presentes no território brasileiro; além disso, houve diversos comerciantes que se estabeleceram no país para assegurar a exportação de tais espécimes que, até aquele século, somente eram enviadas em herborizadas (ou seja, secas).
Ao mesmo tempo, eram poucas as coleções privadas de orquídeas no Brasil e, se foi nesse século que a prática europeia de paisagismo chega com maior força no país, a orquídea não estava entre as flores mais apreciadas para o uso nos canteiros (Silva, 2013). Uma explicação possível para isso é a crença de que tais flores, que crescem em cima de árvores, seriam espécies parasitárias, trazendo mau-agouro para quem as possuísse; desfazer tal crença foi, inclusive, um dos objetivos da Sociedade Brasileira de Orquidófilos (SBO), que promoveu a publicação Orquídea entre 1938-1974, difundindo o conhecimento sobre a espécie de plantas. Aos poucos, as orquídeas, vistas como sinal de má sorte, foram adquirindo apreço na sociedade e, no que concerne à atuação da SBO, tornaram-se símbolo de nacionalidade, representando o Brasil em feiras e exposições internacionais de flores.
No âmbito do paisagismo proposto por Paul Villon para Palácio da Liberdade, inaugurado em 1898, a presença de uma estufa feita em estrutura metálica e rodeada por vidros, com duas fontes centrais feitas em rococó, mesma técnica utilizada para a gruta e para o coreto; esse espaço serviu, ao longo dos anos, como lugar para cultivo de espécies que complementam as diversas plantas já presentes nos jardins, como as tamareiras, pitangueiras, jaqueiras e mangueiras. Na expografia atual a estufa adquire, como elemento central, as orquídeas, tornando-se um Orquidário que enfeita e colore os jardins do Palácio. Dentro da atuação do Programa Educativo do Palácio da Liberdade, o Orquidário é um local rico para a aproximação sensorial dos visitantes com o lugar, aguçando a visão, a audição e o olfato, ativando memórias e afetividades que as orquídeas, de grande presença e apreciação, podem evocar em cada sujeito (Nobel et al., 2025).
Referências:
SILVA, Valéria Mara da. Educando homens para educar plantas: orquidofilia e ciência no Brasil (1937-1949). 2013. 217 f. Tese (Doutorado em História) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2013.
SILVA, Valeria Mara. Colecionando orquídeas, colecionando o Brasil (1930-1950). Museologia & Interdisciplinaridade, Brasília, Brasil, v. 5, n. 9, p. 188–197, 2017. DOI: 10.26512/museologia.v5i9.17295. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/museologia/article/view/17295. Acesso em: 19 ago. 2026.
NOBEL, Luiza; ABREU, Gabriela; GIL, Maira; MORAIS, Angelica. Percurso Temático – Ecologias da cidade: Experiências Sensoriais e Botânicas. 2025.42f. Programa Educativo do Palácio da Liberdade, Belo Horizonte, 2025.
ORQUIDÁRIO. Foto: Laura Luz
ORQUIDÁRIO. Foto: Laura Luz
ELEVADOR DO PALÁCIO DA LIBERDADE. Foto: Laura Luz
Autoria: Ana Abreu
Mesmo sendo um prédio de mais de um século de vida, o Palácio da Liberdade conta com recursos acessíveis há muito tempo. Na década de 1920 foi instalado no centro da edificação um elevador Atlas Pirie, Villares & Cia, antecessora das atuais empresas de elevadores Atlas e Schindler. Após o início da 1ª Guerra Mundial, com a redução de importações de insumos para abastecer o mercado brasileiro, a manufatura nacional se viu sem abastecimento. Com esse espaço vago no mercado, dois engenheiros ingleses fundaram, em 1918, a empresa LOWSBY & PIRIE a fim de produzir peças e réplicas adaptadas para elevadores, que até então vinham da Europa. Com a entrada de Carlos Dumont Villares, sobrinho de Santos Dumont, em 1920, a empresa muda seu nome para “Pirie,Villares & Cia” e expande sua produção em face do início do processo de verticalização das cidades.
O elevador se encontra ao fundo do Hall de Entrada, atrás da escadaria. Sua estrutura interna é feita de madeira nobre, com porta pantográfica de cobre batido e estrutura mista de aço e ferro fundido para seu exterior.
Contando com duas entradas, uma frontal e uma traseira, suas portas são duplas, seguindo os modelos da época; primeiro, uma porta feita de ferro fundido é fechada, em seguida a porta pantográfica de cobre é selada para engatar o mecanismo e a cabine percorrer os andares do edifício. Para a instalação do elevador, símbolo de modernização e tecnologia da época, um vitral localizado no Salão de Banquetes teve de ser retirado e realocado na reserva técnica.
Utilizado até hoje para promover a acessibilidade para pessoas que usam cadeira de rodas e possuem mobilidade reduzida, este elevador Atlas é um símbolo não só da modernidade pretendida para o Palácio, mas uma marca da história industrial do país.
Referências:
GALA, Paulo. Villares, uma gigante brasileira. Paulo Gala / Economia & Finanças, 2024. Disponível em: https://www.paulogala.com.br/grupo-vilares-uma-gigante-brasileira-que-virou-po/. Acesso em: 13 Ago. 2026.
Vitral religioso é encontrado no Palácio e estará em exposição; confira. O Tempo, 2023. Disponível em:
https://www.otempo.com.br/turismo/vitral-religioso-e-encontrado-no-palacio-e-estara-em-exposicao-confira-1.2838564. Acesso em: 13 Ago. 2026.
ELEVADOR DO PALÁCIO DA LIBERDADE. Foto: Laura Luz
ELEVADOR DO PALÁCIO DA LIBERDADE. Foto: Laura Luz